Será que o amor que acredito não existe? Esse amor de entrega, de cumplicidade. Não sei traduzir em palavras, em frase concretas e claras tudo que espero desse amor. O meu ‘cara certo’ apareceu duas vezes, mas nas duas seguimos caminhos diferentes. Haverá um terceiro? Ou quantos outros?
Amor que creio ele é entrega de um ao outro, todo dia. Ele é segurança e diálogo. Ele não tem vergonha, não faz reservas. Ele é carinhoso e sabe dizer não. Ele sabe dizer você está errado e sabe te elogiar quando acertas. O amor que creio te faz dois e não um. Ele te completa e te ensina. Sempre acrescenta, não existe para diminuir. Ele te acha linda de manhã cedo com os cabelos despenteados, mas te acha magnífica quando pronta para uma festa. Ele conversa contigo no silêncio de um olhar. E também respeita o dia que não podes ser tudo o que precisas. Ele entende que um dia você está bem e no outro é seu dia de mau humor, porque ele sabe que você é real.
Meu amor não quer viver um sonho. Não quer me tornar princesa de uma história perfeita com início, meio e fim. A minha história de amor desconhece o fim. Ela recomeça em cada amanhecer, e respira ao entardecer.
Meu amor almoça junto, canta junto, ri e chora. Ou simplesmente não faz nada. Meu amor verdadeiro gosta do que não suporto, mas respeita meu não gostar. Como também me ensina a provar, a arriscar.
Meu amor não briga, mas discute quando não concorda. Me ouve, eu o ouço e temos liberdade de chegar a conclusões diferentes. O amor que creio não se satisfaz com tua tristeza. Te ajuda a ser feliz, mesmo que isso não me faça completamente feliz. Ele me respeita os limites. Eu aos dele. É uma troca. Meu amor é feito de ceder, muito mais que doar.
Meu amor não se completa só nas semelhanças, mas na descoberta das diferenças. Meu amor cresce mais quando me falas a verdade, do que quando pintas a sua fala. Meu amor é feito de admiração. Amor para mim é admiração. Não posso amar alguém que não admire. Não posso amar alguém em quem não confie. Não posso amar alguém que não me traga segurança. Amor com excesso de ciúmes é cárie na alma.
O ciúmes que meu amor permite é só aquele para te deixar vermelho. É aquele que te faz olhar para mim de novo. É aquele que te faz pensar: és minha.
Meu amor sonha e realiza. Pensa e age. Meu amor se permite a dizer eu te amo, tanto quanto hoje não ‘tô’. Meu amor quer ter filhos, quer ter casa, mas sabe que é preciso esperar e construir. Meu amor respeita meu tempo. Meus medos. E me ensina a superá-los. Meu amor me diz o que preciso ouvir, desde que seja a verdade. Meu amor é amante, mas antes é meu amigo. O amor que creio nos torna cúmplices de todos os momentos, com ele não posso temer sonhar, nem acordar.
Meu amor faz o melhor sexo. Porque o faz com amor. Ele não tem pressa de chegar. Ele aceita só olhar. Mas, ele também entende se a noite posso estar sedenta. Sem pensar mal de mim, em nem uma e nem em outra situação. Para ele não preciso de dor de cabeça, não preciso pedir que vá com calma. Ele sabe o melhor jeito de me levar.
Meu amor entende o que penso, e o que não entende tem coragem de pedir explicação. Ele não tem medo do meu passado. E nem do nosso futuro. Meu amor é de certeza. Ele não continua buscando, porque acredita ter encontrado.
Será que esse amor tão cheio de entrelinhas é assim tão surreal? Só quero um amor simples. Um amor de verdade. Um amor que nos leve juntos a velha idade, um amor que quando as belezas nos abandonarem continue me olhando com a alegria do primeiro encontro. Um amor que entenda que amor nada tem a ver com a cor dos olhos, com o peso na balança, com o sorriso que sempre levo no rosto, com a voz que envolve. Um amor que compreenda que amor é menos. Que amor é amizade. Que amor é confiança. Que amor é querer estar junto. Que amor é feito de desejo. Do desejo de dar certo.
Que amor verdadeiro acontece de forma natural. Com o amor verdadeiro você não precisa de máscaras, de risos e caras e bocas. Com o amor verdadeiro você só precisa de paciência e tempo. Tempo para que a semente cresça nos dois, e paciência para cultivá-la. Com todos os ingredientes que ficaram nas sombras desta história.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Parceiro da hora errada

Nem vem me dizer que a hora certa é agora.
Não vem me fazer acreditar que tudo aconteceu sem querer.
Que na hora ainda vai mudar.
To querendo ser bem menos amiga que sou.
Mas, me conheço e sei que vou entrar neste jogo de cara lavada.
Enxugar lágrimas e deixar acontecer.
Então não vem me dizer que não sei do que estou falando.
Isso é tão comum para mim, você não é o primeiro.
Mas, quem me dera crer que és o último.
terça-feira, 28 de outubro de 2008

Muitas lembranças que pairam após o fim. Aquela música, um cantor, um ritmo.
Um cheiro, o sabor.
O dia, a noite. O lugar marcado. O sonho de estar aqui, de estar lá.
Uma letra conhecida, um papel esquecido. Uma pasta em meio ao arquivo cheia de lembranças, sensações. Quase indescritíveis. Um som e uma voz. Todas as músicas que sinto saudade e não posso mais ouvir. Seria assinar a hora da nostalgia.
Seria me ferir.
Os saberes compartilhados. Desenhos, gostos, tons, afins. Aquela música que você me enviou numa tarde de sábado pelo msn há meses. No dia em que era mais um amigo na lista virtual. Depois foram outras tantas e sua empolgação em dividir algo que gostavas.
As minhas poesias, meus encantos, as conversas segredadas ao telefone. As maluquices, as besteiras sem fim. Hoje você não recebe minhas atualizações, não me envia suas novas edições. Eu aprendi de fotos, você não sei ao certo o que levou. Sei que deixou muito. O suficiente para marcar parte de mim. Para transformar, haver um antes e depois. Nada que me faça sofrer. Apenas que me causaram grande mudanças.
A vida sabemos que é assim. Com idas e vindas, gente que insiste em partir querendo ficar, sonhos compartilhados, desejados que nunca se concretizam. A paixão acaba antes, o fogo, o ardor. E tudo muda mais uma vez. E a gente tem medo de olhar para trás e lembrar. E já não quer pensar lá na frente.
Sempre sofri com maus entendidos, uma frase pela metade, outra com duplo sentido.
Gosto da distancia do fim. Da quebra. Cada um para seu lado e se acabou. Acaba a amizade também, parece essencial para que ela sobreviva das cinzas mais tarde. É um teste de fogo. Na maturidade, para o coração, para a coragem, para o amor.
Se eu pudesse pedir algo por último pediria para não contar nossos “segredos de liquidificador”, para não dividir em outro olhar o que nos fazia cúmplice. Quero que sejas original, em outras palavras. Quero que com o novo amor não cante os poetas que nos embalaram em algum momento, todos sem exceção. Quero que se dividindo não copie ou reproduza coisas que eram nossas. Não suportaria imagina-lo dizendo “hey” à outro alguém. Nem cantando Bryan Adams. Nem falando de futebol. Nem de fotografia ao mesmo estilo.
Seja novo. Seja você. Mas, não leve lembranças nossas. Nem as que aparentemente deram certo. Comece do zero. Conheça-se mais uma vez, deixe se descobrir. Não force. Não repita. Não me use. Deixe imaculada nossa história. A lembrança do que nos fez bem merece esse carinho especial. O último. Único.
E deixe pintado no retrato que ficava na parede a nossa história, real e mítica. Como deve sê-lo.
Um cheiro, o sabor.
O dia, a noite. O lugar marcado. O sonho de estar aqui, de estar lá.
Uma letra conhecida, um papel esquecido. Uma pasta em meio ao arquivo cheia de lembranças, sensações. Quase indescritíveis. Um som e uma voz. Todas as músicas que sinto saudade e não posso mais ouvir. Seria assinar a hora da nostalgia.
Seria me ferir.
Os saberes compartilhados. Desenhos, gostos, tons, afins. Aquela música que você me enviou numa tarde de sábado pelo msn há meses. No dia em que era mais um amigo na lista virtual. Depois foram outras tantas e sua empolgação em dividir algo que gostavas.
As minhas poesias, meus encantos, as conversas segredadas ao telefone. As maluquices, as besteiras sem fim. Hoje você não recebe minhas atualizações, não me envia suas novas edições. Eu aprendi de fotos, você não sei ao certo o que levou. Sei que deixou muito. O suficiente para marcar parte de mim. Para transformar, haver um antes e depois. Nada que me faça sofrer. Apenas que me causaram grande mudanças.
A vida sabemos que é assim. Com idas e vindas, gente que insiste em partir querendo ficar, sonhos compartilhados, desejados que nunca se concretizam. A paixão acaba antes, o fogo, o ardor. E tudo muda mais uma vez. E a gente tem medo de olhar para trás e lembrar. E já não quer pensar lá na frente.
Sempre sofri com maus entendidos, uma frase pela metade, outra com duplo sentido.
Gosto da distancia do fim. Da quebra. Cada um para seu lado e se acabou. Acaba a amizade também, parece essencial para que ela sobreviva das cinzas mais tarde. É um teste de fogo. Na maturidade, para o coração, para a coragem, para o amor.
Se eu pudesse pedir algo por último pediria para não contar nossos “segredos de liquidificador”, para não dividir em outro olhar o que nos fazia cúmplice. Quero que sejas original, em outras palavras. Quero que com o novo amor não cante os poetas que nos embalaram em algum momento, todos sem exceção. Quero que se dividindo não copie ou reproduza coisas que eram nossas. Não suportaria imagina-lo dizendo “hey” à outro alguém. Nem cantando Bryan Adams. Nem falando de futebol. Nem de fotografia ao mesmo estilo.
Seja novo. Seja você. Mas, não leve lembranças nossas. Nem as que aparentemente deram certo. Comece do zero. Conheça-se mais uma vez, deixe se descobrir. Não force. Não repita. Não me use. Deixe imaculada nossa história. A lembrança do que nos fez bem merece esse carinho especial. O último. Único.
E deixe pintado no retrato que ficava na parede a nossa história, real e mítica. Como deve sê-lo.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Estou com uma voz sensual. Sim, sempre achei sensualíssimo estar com aquela voz de quem acorda, aquela voz que só uma boa gripe lhe dá. Amanhã a minha completa aniversário, uma semana. Já passei, creio, por todos os estágios possíveis. Confundi com rinite, aceitei minha má sorte – gripe, quis minha cama, fiz dengo, manha (o que quiser chamar), pedi carinho, rejeitei a medicação, fui mais mãe que filha querendo ser somente filha, me conformei, acreditei estar melhor, me joguei na cama, fiz chá, dormi cedo, tomei banho demorado. Não teve jeito ela está me vencendo.
Mas, tem o lado bom. A voz sensual. A voz que canta e encanta. Também tem os olhos pequenininhos que gosto. E tem aquela sensação do banho: depois da água quente, a cama, o sono e o sonho e acordar com a sensação que se dormiu bem e que quer esticar mais cinco minutos. E hoje se pode.
É estar doente me traz muitas sensações gostosas. Minha vida inteira briguei com minha mãe, nunca conseguimos conversar, ela nunca me entendeu e eu nunca a aceitei. Mas todas as vezes que estive precisando de cama, ela foi além da farmácia. Cuidou, amou, protegeu, mimou. Ganhei sopa na cama e suco de laranja e sempre que estava um pouco melhor ela fazia a comida que mais gosto. Não se importava em acordar as 3h da manhã ou as 5h, ela ouvia minha tosse do outro quarto (hoje tenho para mim que nestas noites ela nunca dormia), bastava o menor movimento de desconforto e ela estava lá ao meu lado, segurou minha mão todas as vezes que precisei tirar sangue (inclusive durante minha gestação) sabia que eu desmaiaria sozinha, limpou as visitas do ‘Hugo’ sem nunca reclamar, fez chá de madrugada e ajeitou os travesseiros pelas minhas eternas crises de falta de ar, ficou ao meu lado até cada soro acabar, me perguntava a cada 15 min como me sentia, e a cada outros 15 insistia que eu devia me alimentar melhor.
Minha mãe foi eternamente uma super mãe. Com todos os defeitos que tem, com todas as adversidades que encontramos. Quando estávamos longe e eu ficava mal ela se preocupava, ligava, mandava alguém conhecido ir ver como estava, me dava dicas. Nunca me deixou na mão. Mas, eu do meu lado filha demais sempre a tive perto demais para enxergar a importância de tudo isso.
Eu sei que hoje preciso crescer, que hoje sou mãe em primeiro lugar, que chegou a hora de fazer a minha própria sopa (e a fiz, como cuidei do Hugo sozinha na madrugada). Mas, ela me faz uma falta. O zelo, o carinho, a proteção excessiva. E mesmo quando discordava dos começos, no fim esteve ao meu lado. Acordou cada madrugada que passei de pé nos dois últimos meses para chegada do Bernardo. Decidi muito mais a cesárea por não agüentar mais vê-la andando atrás de mim no escuro pela casa e dizendo: “Schali, ta contando direito as contrações?” e sempre seguido de um “tem certeza?” e no fim “olha vamos pro hospital, vai que é a hora”. “Mãe, não é. Faltam semanas!”
Eu sei que se morássemos juntas ainda não nos entenderíamos e sei que está magoada comigo, que sente falta do Bê, porque também foi a melhor vó que ele ganhou. A vó que mais me ajudou a cuidar propriamente dele, que não teve nojo de fralda suja, que não se importou de dar banho, de fazer mamadeira, que acordou de madrugada para ficar com o pequeno quando eu tinha que acordar as 6h porque ia trabalhar, e tinha o Bê e tinha a universidade e sabia que a próxima noite ia ser longa. Infelizmente foi o excesso de tudo isso que também nos afastou. Me obriguei a cortar muitos laços para crescer, e crescer como já dizia alguém, dói. E dói imensamente.
Essa sensação de dar colo, em vez de receber. De cuidar, a ser cuidada. De fazer, no lugar de ter tudo feito. Ah! Me rouba um tanto o chão ainda. Sei e sabemos quantas coisas piores aconteceram e quantas coisas boas estão acontecendo, mas um colo de mãe não cairia nada mal essa semana.
Essa sensação de dar colo, em vez de receber. De cuidar, a ser cuidada. De fazer, no lugar de ter tudo feito. Ah! Me rouba um tanto o chão ainda. Sei e sabemos quantas coisas piores aconteceram e quantas coisas boas estão acontecendo, mas um colo de mãe não cairia nada mal essa semana.
Queria um dia só, dez minutos que fossem para chorar um pouco. Me exclamar do corpo dolorido, da febre, daquela infeliz sensação de suor frio que parece que vou desfalecer. E queria sentar na cama depois do banho no meu melhor pijama cor-de-rosa ursinho e esperar ela aparecer na porta encostar as mãos sempre do mesmo jeito e perguntar se preciso de alguma coisa, ao que responderia: quero chá com bolacha maria e gotinhas de bálsamo branco, depois a mãe pode sentar aqui nos meus pés mais um pouco que eu mudo de lado para ganhar cafuné!
Se eu nunca disse o suficiente: EU te AmO mamãe!!
quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Comecei o dia levando na brincadeira meu trabalho de fotojornalismo. Estudamos, lemos, debatemos, assistimos e ouvimos sobre Sebastião Salgado durante várias aulas. Hoje era o dia de fazermos uma espécie de releitura da obra dele. O que mais me fascina e indigna é a minha própria perplexidade diante das fotos dele. Não importa se são crianças, velhos, se falamos em Êxodo ou Terras, ou no Espectro da Esperança. Minha cara no chão é a mesma.
Já chorei, já fechei o livro, já tive ânsia. Mas nem de longe olhando as fotos senti o que vivi quando fui fotografar. Para as primeiras fotos escolhi uma “tribo indígena” que se situa atrás da rodoviária aqui em Passo Fundo, a “tribo” é composta por três famílias, alguns agregados que nada tem de indígena. A única semelhança é a situação de marginalizado que vivem. Sim. Não fotografei oca, pajé, nem uma cultura exótica. Fotografei mais uma cena de pobreza. Brancos, negros, índios, pobres. Num lugar sem condições de receber individuo algum e oferecer se não conforto, dignidade. Não é conversa de menininha que teve tudo e nunca viu a vida lá fora. É papo de quem não consegue aceitar viver numa sociedade tão desproporcional. Eu estava ali de jeans, tênis e blusa. Eles estavam de pés de calço, sem banheiro, comida, no meio da imundice humana que criamos. Eu tinha em mãos um equipamento que vale mais dinheiro do que eles jamais terão na vida. Ia fotografar a vida deles. Eles eram meu objeto inanimado. Instinto de minha curiosidade sagaz. Eu me senti desumana. Queria pedir-lhes desculpas por estar ali, por ser o outro lado, por não poder fazer nada. Eles me contaram muito, pediram ajuda, socorro, querem ser vistos. Querem dizer ao mundo que existem e são tão importantes quanto eu e você que me lê. Eu não podia fazer absolutamente nada. Além de me resguardar na minha vergonha. Eles me presentearam com olhares de esperança, eu que esperava encontrar sofreguidão. Me ofereceram sorrisos, enquanto pensava encontrar desespero. Ganhei uma pulseira de pano, o ganha pão de uma senhora, que ao me ofertar me disse: “lembre de mim, porque eu rezarei por ti para que venças na vida”. Ela. Ela acredita em mim, como nem eu mesma sou capaz diariamente.
Tenho tido tantas lições, não sei se foi porque de repente cresci. Não sei se porque estou crescendo. Apenas sei que a vida tem sido extremamente generosa comigo. Escrever, descrever sobre essa experiência é uma maneira singela de agradecer pela oportunidade de ver a vida assim mesmo em p&b, como tanto gosto. De ter certeza que fiz a escolha certa, usar o jornalismo, a poesia, a paixão pela fotografia (que cresce) para desvendar o submundo que não nos sujeitamos a enxergar todo dia.
Já chorei, já fechei o livro, já tive ânsia. Mas nem de longe olhando as fotos senti o que vivi quando fui fotografar. Para as primeiras fotos escolhi uma “tribo indígena” que se situa atrás da rodoviária aqui em Passo Fundo, a “tribo” é composta por três famílias, alguns agregados que nada tem de indígena. A única semelhança é a situação de marginalizado que vivem. Sim. Não fotografei oca, pajé, nem uma cultura exótica. Fotografei mais uma cena de pobreza. Brancos, negros, índios, pobres. Num lugar sem condições de receber individuo algum e oferecer se não conforto, dignidade. Não é conversa de menininha que teve tudo e nunca viu a vida lá fora. É papo de quem não consegue aceitar viver numa sociedade tão desproporcional. Eu estava ali de jeans, tênis e blusa. Eles estavam de pés de calço, sem banheiro, comida, no meio da imundice humana que criamos. Eu tinha em mãos um equipamento que vale mais dinheiro do que eles jamais terão na vida. Ia fotografar a vida deles. Eles eram meu objeto inanimado. Instinto de minha curiosidade sagaz. Eu me senti desumana. Queria pedir-lhes desculpas por estar ali, por ser o outro lado, por não poder fazer nada. Eles me contaram muito, pediram ajuda, socorro, querem ser vistos. Querem dizer ao mundo que existem e são tão importantes quanto eu e você que me lê. Eu não podia fazer absolutamente nada. Além de me resguardar na minha vergonha. Eles me presentearam com olhares de esperança, eu que esperava encontrar sofreguidão. Me ofereceram sorrisos, enquanto pensava encontrar desespero. Ganhei uma pulseira de pano, o ganha pão de uma senhora, que ao me ofertar me disse: “lembre de mim, porque eu rezarei por ti para que venças na vida”. Ela. Ela acredita em mim, como nem eu mesma sou capaz diariamente.
Tenho tido tantas lições, não sei se foi porque de repente cresci. Não sei se porque estou crescendo. Apenas sei que a vida tem sido extremamente generosa comigo. Escrever, descrever sobre essa experiência é uma maneira singela de agradecer pela oportunidade de ver a vida assim mesmo em p&b, como tanto gosto. De ter certeza que fiz a escolha certa, usar o jornalismo, a poesia, a paixão pela fotografia (que cresce) para desvendar o submundo que não nos sujeitamos a enxergar todo dia.
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